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Reflexões pré-Maratona (o regresso)

Outubro 31, 2014

Este ano decidi voltar a abordar a distância mítica da Maratona. E decidi ir fazê-la no Porto. Já li coisas positivas acerca desta prova e achei que era uma boa forma de conhecer a cidade do Porto, onde já não vou há muitos anos.

Esta vai ser a minha terceira participação numa prova com a distância dos 42.165 metros, depois de ter feito a (antiga) Maratona de Lisboa em 2011 e em 2012.

Nestes últimos dias que antecedem a prova, aparece-me sempre uma pequeno nervosismo. Estou preparado? Se não estou, também não é agora que fico. Bato o meu record? Se não bato, para que serviu o treino?

Nesta altura, só dá Maratona. Leio artigos e fóruns sobre corrida. Identifico-me com algumas coisas, outras fazem-me concluir que há por aí uns quantos doidos. A alguns dou os parabéns, pela sua estreia, ou pelo seu novo record pessoal. Ao mesmo tempo, penso na estratégia de temporização que irei aplicar no Domingo, o que me ajuda a controlar os nervos. Preparar estes pormenores dá-me confiança.

Tal como me dá confiança saber que fiz o trabalho de casa.

Da mesma forma que em 2012 fiz um plano de treino mais exigente do que em 2011 (+175 km), este ano fui um pouco mais longe do que em 2012 (+ 185 km). O resultado disto foram mais de mil quilómetros em treino, feitos em quatro meses. Claro que nunca tinha corrido tanto… e pelo menos esse record já bati :).

Aqui fica a tabela comparativa entre os vários anos:

treinos-maratona-2011-2012-2014

Claro que nunca se sabe bem o que vai sair de uma Maratona. Por causa disto, tenho alguma flexibilidade em termos de objectivos:

O meu objectivo principal é acabar a prova bem, e sempre a correr (excepto uma eventual ida ao WC). Depois disso, espero bater o meu record pessoal (3h57m47s).

Se fizer um tempo entre as 3h50 e as 3h55, fico satisfeito. Mas simpático mesmo, era bater as 3h50m :). No Domingo veremos.

Entretanto, vou ouvindo música para descontrair… começando com uma mensagem do rei Bob Marley.

Para terminar, deixo os meus votos de uma excelente prova a todos os que vão percorrer a distância mítica, este Domingo, no Porto.

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Maratona Seaside de Lisboa (2012)

Dezembro 9, 2012

Hoje era dia M, de Maratona. Era dia de correr 42.165 metros. E era dia de ir atrás das infames quatro horas nesta distância mítica.

A estratégia

A minha estratégia era simples:

  • Para bater as 4 horas tinha de correr, em média, a um ritmo mínimo de 5m41s / km.
  • Como a prova tem um final difícil (Almirante Reis) iria fazer os primeiros 5 km a um ritmo ligeiramente mais lento (à volta de 5:51 por km) para evitar gasto energético elevado (para ter reservas para atacar a Almirante Reis) e para poder aquecer devidamente “a máquina”.
  • Depois do 5º km começaria a recuperar terreno, baixando progressivamente o ritmo, mas evitando baixar dos 5m36s / km. Nota: os 5m36s foram recomendação de uma pessoa experiente, com base no meu recente tempo à Meia-Maratona.
  • Desta forma teria de fazer a maioria do percurso abaixo de 5m39s, de forma a obter a média referida.

Era a minha segunda participação nesta prova, pelo que já conhecia o percurso.

A incógnita aqui era a Almirante Reis. No ano passado cheguei muito bem à Almirante Reis porque tinha feito a corrida quase toda de forma muito conservadora. Este ano não podia ser tão conservador, pois queria mesmo bater o relógio.

Eu estava convencido de que iria conseguir seguir a estratégia, pelo menos até à Almirante Reis. Se quebrasse na Almirante Reis podia não conseguir o ritmo médio alvejado.

A coisa correu mais ou menos assim, embora em algumas zonas tenha saído significativamente dos ritmos alvo.

A prova

O Estádio Primeiro de Maio estava cheio de pessoal. Não sei o que é que aconteceu, mas havia muito mais gente do que no ano passado. Principalmente estrangeiros, que são bem-vindos porque vêm cá deixar os seus euros e dólares que tanta falta nos fazem (sim, as senhoras loirinhas de olhos azuis embelezam a capital, mas a gente precisa é de euros :)).

Nos bolsos tinha o material da minha estratégia de abastecimento: 4 pacotes de gel de pêra e 3 cubos de Marmelada. Também tinha um telemóvel.

Antes da prova começar estava um pouco nervoso, mas isso passou assim que cruzei a linha da partida.

Comecei um pouco mais lento do que o previsto. Não estava fácil correr pois havia muita gente em prova e ainda demorou um pouco a abrir uma clareira.

Ainda durante o primeiro quilómetro passei por um rapaz que estava a fazer a prova em cadeira de rodas e que, na subida, estava a ser ajudado por alguns corredores. Pelo que percebi havia ali um grupo de três ou quatro pessoas que estavam a fazer a Maratona para ajudar o rapaz. Cruzei-me várias vezes com este grupo durante a prova e achei bastante interessante: não é fácil correr uma Maratona e é de louvar que alguém se disponha a correr a distância mítica para ajudar outra pessoa.

Sair da zona de conforto

Os cinco primeiros quilómetros foram feitos a um ritmo calmo, tendo inclusivamente feito dois quilómetros acima de 6:00 (6:02 e 6:06). O ritmo médio estava à volta dos 5:52, que era 11 segundos acima do médio. Estava na hora de começar a correr ligeiramente mais rápido e de começar a aproximar-me do ritmo pretendido. E assim foi.

Durante estes primeiros quilómetros notei uma pequena dôr na coxa direita, e estava preocupado que isso pudesse vir a dar trabalho mais à frente. Era uma dôr já tinha tido em alguns treinos. A certa altura passou e não me chateou mais :).

Por volta do 13º km tive de fazer uma paragem para ir ao WC (à custa da água que já tinha bebido). Curiosamente fui ao WC no mesmo sítio onde tinha ido no ano passado. Ir ao WC significa perder tempo, mas a decisão era fácil: ou ia ao WC, ou tinha de lidar com o desconforto durante mais 30 km. Nesta ida ao WC perdi uns 20 ou 30 segundos – como foi numa rua em descida, acabou por não ter grande impacto no tempo do quilómetro.

Um pouco mais à frente, ao 15º km e já em Sete Rios, apareceu mais uma subida semi-longa, seguida de outra descida que nos levou para a rua do El Corte Inglés, onde nos apareceu mais uma subida… Enfim, é Lisboa :).

Aproveitei a descida desde o El Corte Inglés até ao Terreiro do Paço para recuperar algum tempo e fiz dois quilómetros a 5:27. Tive de me conter um bocado, porque as descidas são enganadoras e é fácil gastar energia sem se dar por isso. Ainda assim, achei que os 5:27 já eram abusar da sorte…

A recta

Lá cheguei ao Terreiro do Paço. Era altura de acalmar o ritmo e voltar para o intervalo de segurança (5:36 – 5:41).

Eu estava constantemente a olhar para o relógio para perceber se o Ritmo Médio estava a baixar. A cerca altura já ia em 5:43, o que significava que já tinha recuperado significativamente do início mais lento.

Eu quase sempre que olhava para o relógio via que estava a correr o quilómetro actual a 5:38 mas, curiosamente, há muito poucos parciais com 5:38 no registo que o relógio fez. Se calhar estava a sonhar. Na cabeça ia a dúvida sobre se conseguiria manter aquilo ritmo até ao final.

Lá passei na zona em que começa a Meia-Maratona (ainda me lembro de, em 2010, estar nesta zona à espera da partida para a minha primeira Meia-Maratona e de ver passar o pessoal da Maratona e de ter achado as passadas daquela malta impressionantes) e aquilo ainda estava cheio de pessoal que lá estava para a estafeta.

Ao quilómetro 23 cruzei-me com o meu amigo Tiago, que me foi dar dois cubos de marmelada (os bolsos são limitados e não cabia lá tudo) que eu iria usar durante a segunda metade da prova. Tinha dito ao Tiago que ia chegar ao pé dele entre as 11:08 e as 11:15, e passei à volta das 11:12 e qualquer coisa. A coisa estava a correr bem e ainda me sentia em boas condições mas a parte chata da Maratona ainda estava para começar.

Continuo em direcção a Algés e, a certa altura, oiço alguém a gritar o meu nome. Era o Nuno, que estava no outro lado da estrada, de bicicleta, a deslocar-se para o local onde iria esperar por mim para me ajudar nos quilómetros finais. O rapaz fez uma tal baralheira que devem ter ficado a achar que ia maluco :).

Esta parte do percurso é um bocado chata e longa, mas era a parte onde era essencial que eu conseguisse correr abaixo do ritmo alvo, para poder compensar o início mais lento. Ia olhando para o pessoal que corria na direcção contrária, tentando encontrar alguns amigos e conhecidos que vinham na Meia-Maratona. Acabei por não conseguir ver ninguém, ao contrário do ano passado…

A certa altura escorreguei no chão molhado de uma zona de abastecimento e ia caindo (cheguei a tocar com uma mão no chão). Fiquei com umas dores no braço e no dedo grande do pé direito (!) e isso deixou-me um pouco preocupado. Também fiquei um pouco irritado, pois tinha perdido ali alguns segundos e, principalmente, tinha saído do meu ritmo. As dores no braço foram passando, mas o dedo tinha ficado tocado suficiente para causar algum desconforto.

Eu continuava a manter o ritmo e a olhar para o relógio. A certa altura aquilo marcava 5:42 de ritmo médio. Estava quase a entrar no ritmo médio que permitia acabar a Maratona abaixo das 4 horas, mas ainda não estava lá e já tinha corrido vários km abaixo do ritmo desejado. Estariam as minhas expectativas desajustadas? Tinha feito mal as contas?

A companhia

Tal como no ano passado, recrutei o Nuno para me ajudar nos últimos quilómetros da Maratona. Desta vez ele juntou-se a mim perto do 29º km.

Expliquei-lhe a estratégia que estava a seguir e disse-lhe que precisava de continuar a correr abaixo de 5:39 / 5:38 para conseguir baixar o ritmo médio e acabar aquilo bem.

Ali por volta dos 30º km já se começavam a notar algumas quebras no pessoal. Isso acaba por dar algum alento a quem ainda vai bem.

O Nuno perguntou-me como estava o Ritmo Cardíaco e disse-lhe que este ano tinha decidido não ligar ao RC. Estava a fazer a prova usando apenas o ritmo de corrida como referência. Acho que só olhei para o RC uma vez durante a prova toda (até me lembro que marcava 146 bpm na descida do ECI para o Marquês).

Ali por volta do 32º ou 33º comecei a notar alguma dificuldade em manter o ritmo. Tinha de puxar mais pela “máquina” para me conseguir manter naquela zona alvo. Mas ainda conseguia correr normalmente e conseguia falar.

Um pouco antes de chegar à Almirante Reis, o relógio marcou 5:39 (ou 5:40, já nem sei) como ritmo médio. Fiquei contente e esperançado mas, como ainda faltava subir aquilo tudo, ainda não tinha certeza que fosse conseguir as quatro horas. Se mantivesse o ritmo ia conseguir, mas se quebrasse podia desperdiçar quatro meses de trabalho.

A Almirante Reis

Não sei o que se passou mas, a certa altura, já estava em piloto automático e comecei a correr mais rápido. Enquanto subia a Almirante Reis, à qual tinha chegado com 35 km nas pernas. O Nuno chamou à atenção que estávamos a fazer como no ano passado e que estávamos a passar montes de gente.

Apesar dos receios, a Almirante Reis correu-me bem. No entanto custou-me muito, porque ia com as pernas muito cansadas e foi físicamente e psicológicamente exigente manter (ou melhor, acelerar) o ritmo durante aquela subida toda. O meu cérebro deve ter passado para as pernas… Foram várias as vezes em que me vieram lágrimas aos olhos (não estava em sofrimento, mas estava em esforço e um pouco emocionado por perceber que o treino ia dar dividendos). Fiz, durante a subida da Almirante Reis, 2 dos 3 quilómetros mais rápidos de hoje. O apoio do Nuno foi muito importante nesta fase, porque permitiu tirar um bocado a cabeça do desconforto.

Ainda durante a subida ainda tive algumas dores e ameaços de caimbras (que me iam assustando) mas nada que me obrigasse a baixar o ritmo (pelo contrário).

A certa altura o relógio começou a marcar 5:37 de ritmo médio e foi aí que me apercebi que ia conseguir bater as 4 horas com margem. Chegado ao Areeiro ainda tomei o último gel (não sei se terá tido algum efeito… mas estava no bolso, portanto siga) e a partir dali já estava feita :).

O Nuno deixou-me um pouco depois, antes da descida da Av. dos EUA. Ali já estava super feita, era só aproveitar a descida para embalar para o final. À entrada do estádio ainda escorreguei ligeiramente, o que fez com que outra caimbra aparecesse mas era só mais uma ameaça. Vieram-me novamente lágrimas aos olhos enquanto me deslocava para o tartan. Quando entrei no tartan e olhei para o relógio, vi que estava nas 3h57m…

Quando cruzei a meta e parei comecei a ter caimbras em vários músculos das pernas. Ainda bem que a Maratona são só 42165 metros…

Consegui bater as 4 horas. Fiz a prova em 3h57m47s. É o meu novo record pessoal na distância da Maratona. É uma bela prenda de Natal antecipada :).

Quando cheguei ao carro e me sentei, tive uma caimba que me obrigou a sair do carro para alongar os músculos. A minha boleia fez o seguinte comentário “Para que é que é preciso correr 40 km? Não chegam 20?”. Eu nem tentei explicar…

Parciais do Garmin:

  • 10 km – 58m43s
  • 21 km (HM) – 2h01m (+ -)
  • 30 km – 2h51m11s
  • 40 km – 3h47m (+ -)
  • 42.165 m – 3h57m47s

Fiz um parcial negativo de cerca de 3 minutos.

Em 2011 tinha feito esta prova em 4h12m32s, o que significa que o novo record são menos 12m45s.

Eu gosto muito deste percurso e gostaria de melhorar mais o meu tempo no mesmo. Infelizmente, pelo que li recentemente, este terá sido o último ano que a prova teve este percurso. A prova foi adquirida e o percurso previsto para o próximo ano será praticamente todo à beira-mar.

Tenho pena que mudem o percurso, pois acho que é muito desafiante – não só pela Almirante Reis, mas pelo perfil de sobe-e-desce que torna difícil uma “temporização equilibrada”. Percebo que o percurso actual não é grande chamariz para os estrangeiros que querem é provas para bater records, mas Lisboa é sobe e desce. Uma Maratona de Lisboa sem colinas não é uma Maratona de Lisboa :).

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Uma nota sobre o treino

Como já tinha dito no post sobre o treino feito em Agosto,
uma das dificuldades do plano era o treino em RM ao Sábado, seguido de um treino longo ao Domingo. Isto fazia com que o treino de Domingo fosse difícil devido às pernas cansadas do treino mais rápido de Sábado. Ao subir a Almirante Reis lembrei-me desses dias em que o treino de Domingo era mais lento do que o planeado (que já era lento por concepção) pois, em termos de resposta ao cansaço, parecia que estava num desses treinos (embora com muito mais esforço, porque estava a correr muito mais depressa).

Outra coisa que o plano recomendava (e que fui fazendo) eram as ocasionais “fast finish long runs“, nas quais o último 1/4 da distância (supostamente – nem sempre fiz tanto) era feito a um ritmo mais rápido do que os 3/4 anteriores, também para treinar a capacidade de correr depressa com as pernas cansadas.

Estou plenamente satisfeito com a escolha de plano para o resultado desejado e efectivamente fiquei preparado para “correr rápido com as pernas cansadas”. Embora não tenha seguido o plano a 100% e apesar de ter feito algumas modificações (essencialmente para adicionar distância) segui o espírito (filosofia?) do mesmo à risca.

Para terminar, deixo os meus parabéns a todos os que se estrearam nesta prova e que entraram na categoria de Maratonistas 🙂 e um agradecimento ao Tiago e ao Nuno pela disponibilidade para irem para o frio a um Domingo de manhã para me ajudarem a alcançar o objectivo.

Reflexões pré-Maratona (2ª versão)

Dezembro 8, 2012

Em geral não faço fazer posts a antecipar uma prova, mas a Maratona tem algo de especial. Não é à toa que tenho andado com um nervoso miudinho (que tem aumentado de dia para dia).

Lembro-me que no ano passado, quando comecei o plano para preparar a minha estreia na distância, cheguei a comentar com algumas pessoas, em jeito de brincadeira, coisas do género “já só faltam 68 treinos” (após o primeiro treino) e de ter continuado com isso durante alguns dias (penso que o fiz, pelo menos, até ao 5º treino). Eu nunca tinha seguido um plano de treinos de corrida, e a ideia de seguir um plano de treino de 18 semanas não era fácil de encaixar.

Uma das coisas que torna a Maratona interessante é que o próprio treino é um desafio por si só. É um desafio porque não é fácil manter o foco em algo que não deixa de ser um hobbie (ou seja, não dá dinheiro) mas que exige um compromisso ao nível de uma profissão ou trabalho (embora algumas faltas ao plano tenham pouco impacto, ao contrário de algumas faltas ao trabalho).

É um desafio grande porque exige muita disponibilidade física e também muita motivação e disponibilidade mental, porque durante 18 semanas há muita coisa que pode correr mal e que pode atrapalhar a preparação. Coisas como pequenas lesões, dificuldades em manter um horário, às vezes está muito calor, outras vezes é a chuva que não dá descanso, e às vezes está muito frio.

Também é um desafio porque condiciona o tempo livre do atleta. Em geral é preciso descansar mais e às vezes é preciso ir dormir mais cedo, para poder ir fazer aquele treino que apenas se consegue encaixar às cinco da manhã. Tudo isto tem um impacto na nossa vida e é preciso não vacilar.

E, apesar de todo o esforço para tentar seguir o plano, às vezes é preciso ter cabeça fria para decidir cortar um treino quando pura e simplesmente se está demasiado cansado e fazer esse treino era arriscar uma lesão.

Este ano nunca me passou pela cabeça que poderia não conseguir fazer o plano. Nunca duvidei que conseguiria cumprir a maioria do plano, mesmo tendo em conta que estaria a seguir um plano de cinco treinos por semana (ao contrário do plano do ano passado, que apenas definia quatro dias de corrida).

Conseguir seguir o plano (ou uma percentagem grande dele) é algo que já deve encher de orgulho qualquer Maratonista-em-preparação. Claro que isso não chega. Não ando a treinar pelo treino, mas sim para chegar ao “dia M” e conseguir concluir a prova (e, quem sabe, atingir uma determinada marca).

Costuma-se dizer que a grande dificuldade da Maratona está na preparação. Mas não é só nisso que ela está – e digo isto do alto da minha experiência de 1 Maratona concluída :).

Muito daquilo que faz a Maratona está na execução, ou seja, na forma como o atleta coloca em campo a sua estratégia (ritmo, alimentação, etc.) no dia da corrida. E essa é outra das coisas que dá interesse à Maratona – é preciso abordar a prova com cabeça, porque estoirar numa Maratona não é o mesmo que estoirar numa Meia-Maratona.

Este Domingo vou a Lisboa com o objectivo de baixar as 4 horas na distância mítica. Fiz o meu papel em termos de treino. A estratégia está pensada, os ritmos mínimo e máximo estão escolhidos. Já tenho o dorsal. Falta executar.

O Treino…

Ficam aqui alguns números para dar ideia do meu envolvimento com este plano:

  • Contagem: 76 Actividades
  • Distância: 948.13 km
  • Hora: 96:39:35 h:m:s
  • Ganho de elevação: 9,421 m
  • Veloc. média: 9.8 km/h

Foram mais de 900 quilómetros e mais de 95 horas de corrida. Fiz o meu papel.

E aqui fica uma tabela que compara o treino deste ano com o do ano passado:

treinos-2011-2012

Boa sorte a todos os que vão correr no Domingo.

Maratona Seaside de Lisboa (2011)

Dezembro 4, 2011

Preciso de um novo objectivo, porque entretanto passei a Maratonista!

Mas, começando do início…

O plano era ser conservador durante os 10 Km iniciais e depois aumentar o ritmo na descida até à Av. Infante D. Henrique. Depois era fazer a 24 de Julho a um ritmo mais ou menos constante, chegar ao ponto de retorno, voltar para trás e abordar a Almirante Reis com o resto de força que ainda houvesse.

Quando se fala em Maratona fala-se sempre “na parede”. A “parede” que supostamente aparece depois dos 32 Km por se esgotarem as reservas de glicogénio nos músculos. Eu levei nos bolsos vários abastecimentos para tentar retardar ao máximo esse esvaziar de reservas: uns cubos de marmelada, 3 pacotes de um gél com sabor a Pera e 2 pacotes de um gél com sabor a Frutos Silvestres. Também lá tinha metido um telemóvel. Os bolsos estavam tão cheios que fiquei com medo que os calções escorregassem a meio da prova :).

Cheguei ao Estádio 1º de Maio por volta das 8:15 e andei por lá. Fiz um mini-aquecimento na pista de tartan e contemplei a ambicionada meta.

O arranque

A temperatura estava muito boa para correr. Alinhei a uns 20 metros do balão da linha de partida.

A organização deu o tiro de partida, passei o balão, encostei-me à direita e lá fui nas calmas, muito perto dos 6 min/km. Ao fim do segundo ou terceiro quilómetro, juntei-me ao Zé Magro do Mundo da Corrida. O Zé estava lá a ajudar um amigo que também se estava a estrear, e ia ali a um ritmo que era próximo do que eu queria fazer naquela fase, portanto fiquei na conversa com ele.

Fui com esse grupo mais ao menos até ao Lumiar, onde eles pararam para irem à “casa de banho”. Continuei sozinho e fui-me juntar a alguns corredores que iam um pouco mais à frente.

A descida

Aproveitei a descida para ganhar tempo mas fui sempre com cuidado para manter o ritmo cardíaco abaixo dos 150 bpm. Curiosamente não estava muita gente a fazer isto. Até me questionei se não estaria a exagerar o ritmo e qual seria o preço a pagar mais tarde…

A longa recta, parte 1: 

Acabada a descida era tempo de voltar ao ritmo mais calmo, para não estoirar antes dos 30 Km :p.

Quando cheguei ao pé do Cais Sodré colei-me a um grupo onde ia um português, duas alemães e um alemão. Acho eu que eles eram alemães. O senhor português ia-lhes a dizer que tinha feito a Maratona do Porto no mês passado, que era uma prova ainda mais bonita do que a de Lisboa e que eles deviam ir lá experimentar. Nada como promover o país para ajudar a sair da crise :). Este grupo ia a um ritmo à volta de 6:10 min/km e foi esse o ritmo que mantive enquanto estive com eles.

Como já disse, ia com os bolsos bem carregados, mas ainda assim tinha pedido ao meu amigo Tiago que mora perto de Alcântara para ir ao quilómetro 24 levar-me um cubo de marmelada extra. Tenho de lhe agradecer, porque o espaço nos meus bolsos já estava reduzido e queria jogar pelo seguro, não fosse faltar abastecimento da organização.

Depois de receber o cubo do Tiago afastei-me dos alemães e estive algum tempo sozinho. Nesta altura ia entre os 5:55 min/km e os 6:00 min/km. Não tinha certeza que era uma boa altura para ir àquele ritmo, mas o ritmo cardíaco estava controlado portanto deixei-me ir.

Passado um bocado cruzei-me com o Osvaldo, que estava a participar na “meia” e já ia na direcção contrário. Uns quilómetros mais à frente cruzei-me com o Luís, que também ia na “meia”.

A longa recta, parte 2: A companhia

Há uns meses pedi a um amigo desportista (e rijo) para me ajudar a fazer os 12 Km finais e ele concordou. O objectivo principal era ele dar-me apoio moral na parte final da prova, principalmente na subida da Almirante Reis. Ele prontamente concordou e combinámos que ele iria esperar por mim no quilómetro 30 e que ia-mos juntos a partir daí até ao final.

Ao chegar ao 26º ou 27º quilómetro vi o Nuno e perguntei-lhe se se queria juntar a mim logo naquela altura. O rapaz meteu-se logo a correr ao meu lado. Disse-me que eu estava com boa cara e que tinha pensado que naquela altura eu já estivesse com um ar mais cansado. Efectivamente eu sentia-me bem e o comentário do Nuno foi um confirmar disso.

O Nuno é um rapaz muito bem disposto e fomos ali na galhofa a falar de vários temas (e claro que o tema corrida estava incluído). Eu ia sempre a controlar a velocidade e, principalmente, o meu ritmo cardíaco, para manter as coisas no sítio certo. Chegámos ao ponto de retorno (perto de Algés), contornámos o balão respectivo e ficámos virados para a direcção do Cais Sodré.

Continuámos na conversa e a certa altura começámos a passar muita gente. O pessoal já estava a pagar os ritmos altos do início da prova.

Eu continuava a comer e a hidratar-me regularmente. Estávamos com um bom ritmo.

Chegámos ao 36º Km. Era a entrada em terreno desconhecido: nunca tinha corrido tanta distância.

A Almirante Reis

Esta era a barreira física da prova. Depois de uns 36 Km ou 37 Km a correr, levar com aquela longa subida não é fácil. Chegando ali cansado não é fácil fazer bem aquela subida.

A meio da subida disse ao Nuno que tinha apontado para as 4h15min. Já tinha-mos feito mais de 10 Km em conjunto e curiosamente ainda não lhe tinha dito qual era o meu objectivo temporal. Ele perguntou-me se o tempo com que íamos dava para atingir o objectivo e disse-lhe que sim.

A subida estava a correr muito bem e eu até ia com passadas largas. Ia muito concentrado no objectivo. Olhava para o relógio e estava a ver que ia a fazer quilómetros mais rápidos do que o que tinha feito na porção recta da prova.

A certa altura passámos por uma senhora que estava parada a ver as pessoas a correr e que nos disse algo do género “fresquinhos, assim é que é.” e que era mais um sinal de que estávamos ambos a subir a Almirante Reis sem acusar o cansaço.

A meio da subida reparei que tinha perdido o meu lenço de usar ao pescoço. Raios. Não sei como aconteceu, pois levava-o preso à cintura. Mas pronto, não ia voltar para trás para o procurar…

Chegámos à rotunda do Areeiro. Um último abastecimento de fruta (laranjas). Assim que nos deram água, consumi mais um gel. Era o último.

O Nuno já me dizia “está feita” e eu concordava.

Km 42

Um pouco antes do 42º quilómetro tive um ameaço de cãibra. Mas ali já era só descer até ao estádio, portanto aproveitei para ir um pouco mais rápido até à 1º de Janeiro. Estava quase, quase… passámos o portão do estádio e fomos para o tartan.

A chegada

Entrámos no tartan e foi só rolar forte até à meta. Um senhor da organização impediu o Nuno de cruzar a meta por não ter dorsal e eu lá a cruzei,  após um pequeno sprint, com 4h10m33s (tempo do Garmin).

Acabei a Maratona a sentir-me bem. Não vi “a parede”.

Depois de um chá e de uns copos de bebida isotonica, fui agradecer ao Nuno a ajuda. Comecei a fazer uns alongamentos e tive uma cãibra muito forte, tendo ficado com os músculos da perna e pé esquerdos muito presos. Fiquei um bocado à rasca para me livrar daquilo. Fui para o carro do meu pai, que me fez o favor de me dar boleia para casa (caso contrário ia-me ver grego para chegar aos transportes). Ao entrar no carro, mais uma cãibra… e mais uns alongamentos.

E o resto?

Confirmei que a teoria de treino implementada no plano efectivamente dá resultados. É contra-intuitivo ler que correr distâncias longas a ritmos lentos nos vai preparar para ritmos mais rápidos numa distância mais longa no dia da prova. Mas realmente resultou. O meu maior treino, de 35 Km, foi feito em 3h50m, o que dá um ritmo de 6:35 min/km. O segundo treino mais longo, de 32 Km, foi feito a um ritmo médio de 6:01 min/km. A prova foi feita a um ritmo médio de 5:55 min/km (claro que os percursos são diferentes e as variações de altitude nos treinos e na prova foram diferentes, mas dá para ter uma ideia).

Olhando para as estatísticas do Garmin, reparei que o ritmo médio foi de 5:55 min/km e que todos os quilómetros desde o 34º (feito em 5m55s) até ao final foram feitos abaixo desse ritmo médio.

Devido à forma forte como acabei a prova, sinto que podia ter feito um  tempo um pouco melhor. Fiz uma boa gestão do ritmo, mas não fiz a gestão óptima. Talvez se tivesse apertado mais na longa recta à beira-mar, principalmente durante a fase de ida na direcção de Algés. Mas não estou chateado por causa disso. O objectivo principal era terminar bem e isso foi alcançado. O objectivo temporal principal (baixar das 4h15m, como tinha escrito ontem aqui no blog) também foi atingido. Mas suspeito que apertando ligeiramente na recta teria feito abaixo das 4h10m. Fica para a próxima :).

Foi há um ano (menos um dia) que fiz a minha primeira meia, precisamente nesta prova Lisboeta. Curiosamente em termos de estratégia a coisa correu de forma parecida: também nesse dia comecei de forma conservadora e cheguei cheio de força à Almirante Reis. Também nesse dia fiz a Almirante Reis a um ritmo mais forte do que outras partes da prova.

Depois dessa estreia, fiz outras duas “meias”, além de duas corridas de 20 Km. Esta era a minha experiência em provas de longa distância antes de ter a brilhante ideia de fazer a Maratona. Mas correu tudo bem, e isso é que interessa.

Agora vou fazer uns treinos de recuperação – já estive a ver alguns planos pensados para recuperação de maratonistas nesta página. E depois vou arranjar um novo objectivo :).

E claro que este post não ficava completo sem um agradecimento ao Nuno que saiu da cama a um Domingo de manhã para me andar a aturar durante 15 Km :).

Até à próxima e boas corridas.

Reflexões pré-Maratona

Dezembro 3, 2011

Olá.

Faltam menos de 12 horas para a minha primeira participação numa prova com a distância mítica da Maratona.

Será o culminar de 4 meses de treinos, durante os quais fiz mais de 700 Km de corrida. Nunca tinha corrido tanta distância em tão pouco tempo. Nunca tinha corrido tão regularmente. Fiz dois treinos acima de qualquer distância que já tivesse corrido. Corri com sol, com chuva. Corri ao fim da tarde, de manhã cedo – tão cedo que as pessoas ficavam a olhar para mim. Corri em jejum, corri de barriga cheia. Corri constipado :(, corri irritado :|, corri calmo :). Enfim, corri. Bastante – para o meu padrão, pelo menos.

E agora vou continuar a correr, começando amanhã, com a minha participação na prova. Com a expectativa que o treino me tenha preparado devidamente para a distância.

Tenho o devido respeito pela distância e amanhã vou tentar ser conservador durante os primeiros quilómetros. Aos 30 Km terei um amigo à espera para me ajudar com a parte final. Pelo meio terei muita distância para percorrer e tentarei apreciar as vistas Lisboetas :).

Estou com muita vontade de começar a correr. Não tenho grandes objectivos temporais: o meu objectivo principal é acabar bem a prova. Depois o resto vem por acréscimo. Gostava de conseguir fazer a prova abaixo das 4h15m. Se o fizer, ficarei ainda mais satisfeito.

Amanhã há mais :). Boa sorte a todos os que vão participar nas várias provas desta corrida.